
O TDAH não é igual para todas as pessoas
Há décadas, profissionais observam que duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem apresentar características bastante diferentes. Enquanto algumas enfrentam dificuldades principalmente relacionadas à atenção, outras apresentam impulsividade intensa, hiperatividade marcante ou desafios emocionais significativos. Além disso, a resposta aos tratamentos também varia consideravelmente.
Essa diversidade sempre levantou uma pergunta importante: será que estamos chamando de TDAH um conjunto de condições biologicamente diferentes? Foi justamente essa hipótese que os pesquisadores decidiram investigar.
O que o estudo fez?
Os cientistas analisaram exames de neuroimagem de mais de mil crianças diagnosticadas com TDAH. Utilizando técnicas avançadas de análise computacional e inteligência artificial, eles buscaram identificar padrões semelhantes de funcionamento cerebral entre os participantes.
Em vez de agrupar as crianças pelos sintomas observados, os pesquisadores agruparam os participantes a partir de características neurobiológicas. O resultado foi a identificação de três perfis cerebrais distintos, chamados pelos autores de "biotipos".
O que são biotipos?
Biotipos são grupos que compartilham características biológicas semelhantes. No contexto do estudo, isso significa que crianças com o mesmo diagnóstico apresentavam padrões diferentes de conectividade e funcionamento cerebral.
A descoberta sugere que o TDAH pode não representar uma única condição uniforme, mas um conjunto de perfis neurobiológicos que produzem manifestações clínicas semelhantes.
Isso significa que existem três tipos oficiais de TDAH?
Não. Esse é um dos pontos mais importantes para compreender a pesquisa. Os resultados não alteram os critérios diagnósticos atuais. Os sistemas de classificação utilizados mundialmente continuam reconhecendo as apresentações clínicas já estabelecidas:
- Predominantemente desatenta;
- Predominantemente hiperativa/impulsiva;
- Apresentação combinada.
Os chamados "três biotipos" representam uma descoberta científica em investigação e não uma nova classificação diagnóstica oficial.
Por que a descoberta é importante?
Porque ela ajuda a explicar algo que médicos, psicólogos e pesquisadores observam diariamente. Pessoas com TDAH podem apresentar:
- sintomas diferentes;
- graus de comprometimento diferentes;
- trajetórias de desenvolvimento diferentes;
- respostas diferentes aos mesmos tratamentos.
Se pesquisas futuras confirmarem esses achados, poderemos caminhar para uma abordagem mais personalizada do diagnóstico e das intervenções.
O tratamento muda a partir de agora?
Ainda não. Atualmente não existe nenhum exame cerebral utilizado na prática clínica capaz de identificar esses biotipos de forma individual. O diagnóstico continua sendo realizado por profissionais qualificados a partir da avaliação clínica, do histórico de desenvolvimento e dos critérios diagnósticos estabelecidos.
Da mesma forma, os tratamentos recomendados permanecem os mesmos:
- psicoeducação;
- intervenções comportamentais;
- adaptações ambientais;
- suporte escolar;
- medicamentos quando indicados.
O que a ciência ainda precisa responder?
Embora os resultados sejam promissores, várias perguntas permanecem abertas. Os pesquisadores ainda precisam investigar:
- se os mesmos biotipos aparecem em diferentes populações;
- se os perfis permanecem estáveis ao longo da vida;
- se eles influenciam a resposta aos medicamentos;
- se podem prever prognósticos diferentes.
Somente após múltiplas replicações independentes será possível saber se esses achados terão impacto direto na prática clínica.
O que podemos concluir?
A pesquisa representa um avanço importante na compreensão do TDAH. Ela reforça uma ideia cada vez mais presente na neurociência contemporânea: diagnósticos podem reunir pessoas com trajetórias biológicas diferentes, mesmo quando compartilham características comportamentais semelhantes.
No entanto, é fundamental evitar interpretações exageradas. A descoberta dos três biotipos não significa que o diagnóstico mudou nem que novos tratamentos já estejam disponíveis.
O estudo deve ser visto como um passo promissor em direção a uma medicina mais personalizada, baseada não apenas nos sintomas observados, mas também nos mecanismos biológicos que contribuem para cada condição.
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Fontes e Referências
Artigo científico original: Pan N, et al. (2026). Mapping ADHD Heterogeneity and Biotypes by Topological Deviations in Morphometric Similarity Networks. JAMA Psychiatry.
- JAMA Psychiatry — Artigo Original
- PubMed — Resumo Científico
- PubMed Central — Texto Completo
Leitura complementar:
- ADHD Evidence Project
- Medical Xpress
Referências diagnósticas atuais:
- DSM-5-TR (2022) — Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.
- CID-11 (2022) — Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde.
**Nível de evidência:** Evidência emergente. Os resultados são promissores e foram publicados em revista científica de alto impacto. Entretanto, os chamados "biotipos" do TDAH ainda não fazem parte dos critérios diagnósticos oficiais e necessitam de replicação por outros grupos de pesquisa antes de serem incorporados à prática clínica.