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Saúde

Pesquisa identifica três perfis cerebrais no TDAH: o que a descoberta realmente significa?

Estudo publicado na JAMA Psychiatry sugere heterogeneidade neurobiológica no transtorno, mas não altera critérios diagnósticos atuais.

22 de junho de 2026

Ilustração de conectividade cerebral em crianças com TDAH — Imagem: Diane Leite News
Ilustração de conectividade cerebral em crianças com TDAH — Imagem: Diane Leite News

O TDAH não é igual para todas as pessoas

Há décadas, profissionais observam que duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem apresentar características bastante diferentes. Enquanto algumas enfrentam dificuldades principalmente relacionadas à atenção, outras apresentam impulsividade intensa, hiperatividade marcante ou desafios emocionais significativos. Além disso, a resposta aos tratamentos também varia consideravelmente.

Essa diversidade sempre levantou uma pergunta importante: será que estamos chamando de TDAH um conjunto de condições biologicamente diferentes? Foi justamente essa hipótese que os pesquisadores decidiram investigar.

O que o estudo fez?

Os cientistas analisaram exames de neuroimagem de mais de mil crianças diagnosticadas com TDAH. Utilizando técnicas avançadas de análise computacional e inteligência artificial, eles buscaram identificar padrões semelhantes de funcionamento cerebral entre os participantes.

Em vez de agrupar as crianças pelos sintomas observados, os pesquisadores agruparam os participantes a partir de características neurobiológicas. O resultado foi a identificação de três perfis cerebrais distintos, chamados pelos autores de "biotipos".

O que são biotipos?

Biotipos são grupos que compartilham características biológicas semelhantes. No contexto do estudo, isso significa que crianças com o mesmo diagnóstico apresentavam padrões diferentes de conectividade e funcionamento cerebral.

A descoberta sugere que o TDAH pode não representar uma única condição uniforme, mas um conjunto de perfis neurobiológicos que produzem manifestações clínicas semelhantes.

Isso significa que existem três tipos oficiais de TDAH?

Não. Esse é um dos pontos mais importantes para compreender a pesquisa. Os resultados não alteram os critérios diagnósticos atuais. Os sistemas de classificação utilizados mundialmente continuam reconhecendo as apresentações clínicas já estabelecidas:

- Predominantemente desatenta;
- Predominantemente hiperativa/impulsiva;
- Apresentação combinada.

Os chamados "três biotipos" representam uma descoberta científica em investigação e não uma nova classificação diagnóstica oficial.

Por que a descoberta é importante?

Porque ela ajuda a explicar algo que médicos, psicólogos e pesquisadores observam diariamente. Pessoas com TDAH podem apresentar:

- sintomas diferentes;
- graus de comprometimento diferentes;
- trajetórias de desenvolvimento diferentes;
- respostas diferentes aos mesmos tratamentos.

Se pesquisas futuras confirmarem esses achados, poderemos caminhar para uma abordagem mais personalizada do diagnóstico e das intervenções.

O tratamento muda a partir de agora?

Ainda não. Atualmente não existe nenhum exame cerebral utilizado na prática clínica capaz de identificar esses biotipos de forma individual. O diagnóstico continua sendo realizado por profissionais qualificados a partir da avaliação clínica, do histórico de desenvolvimento e dos critérios diagnósticos estabelecidos.

Da mesma forma, os tratamentos recomendados permanecem os mesmos:

- psicoeducação;
- intervenções comportamentais;
- adaptações ambientais;
- suporte escolar;
- medicamentos quando indicados.

O que a ciência ainda precisa responder?

Embora os resultados sejam promissores, várias perguntas permanecem abertas. Os pesquisadores ainda precisam investigar:

- se os mesmos biotipos aparecem em diferentes populações;
- se os perfis permanecem estáveis ao longo da vida;
- se eles influenciam a resposta aos medicamentos;
- se podem prever prognósticos diferentes.

Somente após múltiplas replicações independentes será possível saber se esses achados terão impacto direto na prática clínica.

O que podemos concluir?

A pesquisa representa um avanço importante na compreensão do TDAH. Ela reforça uma ideia cada vez mais presente na neurociência contemporânea: diagnósticos podem reunir pessoas com trajetórias biológicas diferentes, mesmo quando compartilham características comportamentais semelhantes.

No entanto, é fundamental evitar interpretações exageradas. A descoberta dos três biotipos não significa que o diagnóstico mudou nem que novos tratamentos já estejam disponíveis.

O estudo deve ser visto como um passo promissor em direção a uma medicina mais personalizada, baseada não apenas nos sintomas observados, mas também nos mecanismos biológicos que contribuem para cada condição.

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Fontes e Referências

Artigo científico original: Pan N, et al. (2026). Mapping ADHD Heterogeneity and Biotypes by Topological Deviations in Morphometric Similarity Networks. JAMA Psychiatry.

- JAMA Psychiatry — Artigo Original
- PubMed — Resumo Científico
- PubMed Central — Texto Completo

Leitura complementar:
- ADHD Evidence Project
- Medical Xpress

Referências diagnósticas atuais:
- DSM-5-TR (2022) — Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.
- CID-11 (2022) — Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde.

**Nível de evidência:** Evidência emergente. Os resultados são promissores e foram publicados em revista científica de alto impacto. Entretanto, os chamados "biotipos" do TDAH ainda não fazem parte dos critérios diagnósticos oficiais e necessitam de replicação por outros grupos de pesquisa antes de serem incorporados à prática clínica.